04/10/2025 Por: Marcelo Ortiz
Em tempos de streaming, podcasts e redes sociais, o rádio segue fundamentada como um dos meios de comunicação mais resilientes do Brasil. Com mais de um século de existência, o rádio passou por intensas modificações tecnológicas, editoriais e mercadológicas uma delas foi a migração do AM para o FM. No centro dessa transição, emissoras tradicionais como a Rádio Cultura de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, se destacam por manter o compromisso com a informação e a comunidade, mesmo diante da necessidade de se reinventar.
Das primeiras ondas sonoras à revolução do FM
O rádio nasceu no final do século XIX, estimulado pelos ensaios de cientistas como Guglielmo Marconi, considerado um dos pais da telegrafia sem fio. No Brasil, a primeira transmissão radiofônica de que se tem registro foi em 1922, durante as comemorações do centenário da independência, mas foi com a fundação da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, em 1923, que a radiodifusão nacional se materializou.
Durante décadas, o sistema de Amplitude Modulada (AM) foi predominador. Sua grande vantagem era o alcance: o sinal AM podia cobrir grandes áreas, algo estratégico em um país com dimensões continentais como o Brasil. No entanto, a qualidade sonora era baixa e as interferências constantes, o que limitava seu uso para transmissões musicais.
A virada veio na década de 1930, com o desenvolvimento da Frequência Modulada (FM), idealizada por Edwin Armstrong. Com som mais limpo e menos suscetível a ruídos, o FM foi, aos poucos, dominando o cenário musical. No Brasil, essa transição se intensificou a partir dos anos 1970, especialmente nos grandes centros urbanos e entre os públicos mais jovens.
Para o pesquisador Eduardo Meditsch Ferraretto (2001), essa transformação foi além da tecnologia: “cada formato passou a refletir uma filosofia de trabalho da emissora”. Ou seja, a distinção entre AM e FM também se tornou uma tese editorial e estratégica.
A migração para o FM: modernização e desafios
Com o avanço da internet, das mídias digitais e da mudança de hábitos de consumo, o rádio precisou mais uma vez se adaptar. Em 2013, o Governo Federal instituiu, por meio do Decreto nº 8.139, a migração oficial das emissoras AM para o espectro FM. A medida faz parte do Plano Nacional de Outorgas (PNO), com o objetivo de melhorar a qualidade técnica das transmissões e garantir maior competitividade ao setor.
Segundo o pesquisador Lima (2018), a alteração representa mais que uma simples troca de frequência. Trata-se de uma modificação estrutural, que inclui alterações na programação, nas práticas de relacionamento com o público e na identidade das rádios.
Rádio Cultura: de AM 680 à Rádio Hora 92.3 FM
Fundada em meados do século XX, a Rádio Cultura de Campo Grande é um dos nomes mais tradicionais da comunicação sul-mato-grossense. Embora algumas fontes apontem sua fundação em 1945, registros confirmam o ano de 1949 como marco oficial.
Durante décadas, a emissora foi referência em jornalismo local, debates comunitários, música popular brasileira e conteúdo religioso. O público fiel era composto por ouvintes das áreas urbanas e rurais, principalmente de faixas etárias mais elevadas. Um dos principais nomes dessa fase foi o jornalista Arthur Mario Medeiros Ramalho, que iniciou sua trajetória na emissora aos 16 anos e hoje é diretor e apresentador da rádio.
Com a migração para o FM, em 1º de agosto de 2017, a emissora passou por um reposicionamento completo. A Rádio Cultura AM 680 deu lugar à Rádio Hora FM 92.3, tornando-se a primeira rádio 100% gospel de Mato Grosso do Sul.

Segundo o diretor Luciano Medeiros Barbosa Rodrigues, a decisão de reformular a programação da emissora teve motivações tanto pessoais quanto estratégicas. Conforme explica: “Sou evangélico e senti um chamado para levar valores cristãos ao maior número de pessoas possível. Mas também foi uma questão de mercado. Os evangélicos já representam cerca de 40% da população e não havia uma rádio nesse formato por aqui […]”. O nome Hora surgiu como uma sigla simbólica para “Homem Ora”, reforçando o conceito espiritual e religioso da nova proposta, voltada à conexão com a audiência por meio da fé e da transmissão de mensagens de esperança, amor e paz.
A adoção de formatos segmentados como por exemplo, o gospel, comunitário ou musical se apresentou como importante estratégia entre rádios que migraram para o FM, pois esse tipo de especialização permitiu a fidelização de nichos específicos e maior viabilidade econômica, foi o que aconteceu com a rádio “Hora” que estabeleceu parcerias com igrejas, ministérios e patrocinadores religiosos.
Entretanto, mesmo com a mudança de perfil, a Rádio Hora manteve um dos pilares da antiga Rádio Cultura: o jornalismo sério e comprometido com a informação de utilidade pública. A diferença está na abordagem editorial: “Ponderamos a divulgação de tragédias e crimes violentos. Mantemos a informação, mas com responsabilidade e respeito ao nosso público”, afirma o veterano Arthur Mario Medeiros Ramalho.

As pautas jornalísticas priorizam campanhas de saúde, temas ligados à educação, cultura, esportes, economia e política, sempre com uma linguagem acessível e positiva.
Reação do público e presença digital
A migração técnica veio acompanhada de mudanças na identidade visual, presença nas redes sociais, inserção em aplicativos de streaming e produção de conteúdo multiplataforma. A Rádio Hora aposta na interatividade e na participação dos ouvintes como diferencial competitivo. Segundo Luciano Rodrigues, as reações do público foram majoritariamente positivas: “Muita gente elogiou a qualidade do som e a nova proposta. Tivemos resistência inicial, como é comum, mas os ouvintes voltaram aos poucos. Hoje, temos uma audiência fiel e engajada.”
A sustentabilidade da rádio hoje se apoia em quatro pilares: inovação tecnológica, fidelização do público, diversificação das fontes de receita e presença digital fortalecida.
Entre a memória e a inovação
O caso da Rádio Cultura, que agora se chama Rádio Hora é um exemplo para compreender como veículos tradicionais podem se transformar sem perder sua princípios, valores e confiabilidade. Ao realizar a entrevista percebemos que a permanência de profissionais como Arthur Ramalho foi um fator preponderante para a garantia à emissora com sua história, pois mesmo com a adoção de uma linguagem mais atual e focada em valores cristãos a posicionou de forma competitiva no novo cenário radiofônico, preservando parte de sua história.
O rádio, como meio, continua relevante porque é adaptável, como é possível perceber ao migrar do AM para o FM, e sua adoção por uma nova filosofia editorial, a Rádio Hora nos demonstra ser possível aliar tradição e inovação tornando-os complementares.




