Programa Despertando proporcionou conhecimento, autonomia na lida diária e o primeiro certificado da vida do trabalhador rural
Nas mãos calejadas que nunca se negaram ao trabalho no campo, Felisberto Ozório segura com firmeza a primeira conquista educacional de sua vida, aos 48 anos: o certificado do Programa Despertando do Senar/MS. A vida do peão sempre foi feita de chão batido, passos firmes no curral e lida com o gado. Mas foi quando aprendeu a escrever o próprio nome que descobriu uma força diferente. Além da experiência de quem domina a terra, tem também a palavra. Hoje, lê, escreve, assina e entende relatórios, conduzindo as tarefas do dia a dia com mais autonomia.
“Esse programa transformou a minha vida. Um dia eu saí da aula, fui para o carro e fiquei parado por um tempo. Só agradeci a Deus porque eu prometi que um dia eu iria conseguir estudar e ele abriu as portas. Eu tinha vergonha de mim, hoje tenho orgulho”, conta Felisberto.
Antes, tarefas simples como numerar os brincos dos animais, ler instruções de medicamentos ou identificar o sal adequado dependiam da ajuda de colegas ou da filha, que depois da escola escrevia para o pai, gerando frustração e insegurança. Hoje, Felisberto faz tudo sozinho. Lê os números, acompanha recomendações técnicas, preenche relatórios e conduz o trabalho com autonomia. A habilidade de ler e e escrecer transformou não apenas sua forma de trabalhar, mas também a confiança e o orgulho em cada tarefa do dia a dia na fazenda.
“Me lembro que parava para pensar e me sentia tão dependente. Era difícil. Me emociono com o que consigo fazer sozinho hoje”.
A história começa em Camapuã, no distrito de Pontinha do Cocho, onde ele nasceu e cresceu entre bois, cercas e pastos. Desde pequeno, era o braço direito do pai, companheiro fiel nas lidas da fazenda. Quando chegou a hora de estudar, a vida lhe impôs um dilema. Havia serviço a ser feito e a escola não coube naquele tempo. “Se eu saísse para as aulas, meu pai ficaria sem ninguém, então fiquei para trabalhar. Não culpo ele, era como as coisas funcionavam na época”, relembra.
As irmãs tiveram a oportunidade de seguir para a sala de aula e ele ficava para trás. “Elas choravam muito porque não queriam ir para a escola. Eu fazia o contrário, chorava porque queria muito estudar”, conta. Tanto que inventava brincadeiras de estudante, improvisando uma mochila e materiais, fingindo-se aluno de uma sala que só existia na imaginação.
O tempo passou, o menino virou homem de respeito, conhecedor do campo como poucos. Mas a falta de estudo era uma cerca invisível que o impedia de avançar. Quantas oportunidades se perderam porque não sabia ler ou assinar o próprio nome. Quantas vezes desistiu de comprar algum produto ou evitou contratos para não ter que usar apenas a digital.
Despertando – O programa tem carga horária presencial de 243 horas por etapa, com aproximadamente 81 dias úteis de duração, com encontros três vezes na semana, em turma de, no máximo, dez alunos. O Despertando é dividido em duas etapas: Inicial, para introdução da leitura, escrita da língua portuguesa e noções de cálculos matemáticos básico. E a Intermediária que aprimora conhecimento na interpretação, produção de texto e cálculos matemáticos mais complexos.
Nas duas etapas, são desenvolvidos temas complementares que abordam consciência da saúde física e mental, valorização da cultura do nosso estado, além de debate e divulgação de assuntos referentes ao Agro.




